A compreensão da Bíblia Sagrada

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Quando jovem, um dos grandes questionamentos e fonte de diversas crises para crescer e se firmar na fé, vinha da área da compreensão do papel e da interpretação da Bíblia Sagrada dentro da vida e da religião. De vários lados e de diversas naturezas, vinham solicitações, questionamentos, eram colocadas dúvidas que pareciam ser intransponíveis em minha incipiente defesa da fé cristã e católica.

Amigos evangélicos bombardeavam minha cabeça com as eternas, incompreensíveis e desnecessárias críticas sobre o culto à Virgem Maria, aos Santos, o uso das imagens em nossa religião, a leitura e interpretação da Bíblia orientada pelo Magistério da Igreja e outras nuances mais nascidas de uma mentalidade que, de antemão se contrapõe a tudo o que nós católicos acreditamos com maior ou menor clareza.

Os amigos que se consideravam inteligentes, intelectuais, orgulhosos de terem se emancipado da fé e da Igreja, assim como uma grande parte de professores, lançavam copiosamente dúvidas sobre o Texto Sagrado, perguntando sobre a Criação do Mundo, a Criação do Homem em Adão e Eva, o Jardim do Édem ou Paraíso Perdido, o Pecado Original, a passagem do Mar Vermelho a pé enxuto e todas as pseudo-questões científicas que não só põem em cheque os fundamentos da fé no Deus Bíblico, como desmascara a falsidade e mentira da religião do Livro da Revelação.

Desta experiência desafiante em plena juventude, brotou um desejo e uma busca constante por leituras e aprofundamentos que pudessem orientar o crescimento e desenvolvimento da  inteligência fundamentada na razão científica, sem que houvesse o descarte da razão iluminada pela Fé, e ainda, sem perder a simplicidade do Bom Senso e Sabedoria que brota da vida da maioria das pessoas que não vivem na órbita do pensamento abstrato.

Foi um mergulho de cabeça, com coragem e sem medo, na certeza de que a minha fé, que é a fé da Igreja, e é a fé de incontáveis mulheres e homens que chegaram a serem martirizados para não renegá-la, não contradiz a razão, mais a aperfeiçoa e por ela é sistematizada, organizada racionalmente e compreensível, sendo, portanto, passível de ser transmitida, assimilada, argumentada e experimentada, tornando-se assim um fundamento confiável e carregada de significado para a minha vida e tornando-a também, por sua vez, significativa.

Aos poucos fui compreendendo aquilo que tantas pessoas de fé, com cultura, pessoas inteligentes diziam a respeito da Bíblia e que só muito tempo depois entendi: a Palavra de Deus não só está contida no Livro Sagrado, a Bíblia, mais também na Tradição, no ensinamento do Magistério e na Vida. Não se pode compreender, ou melhor, conhecer a Bíblia Sagrada sem buscar encarnar os seus ensinamentos, sem viver os princípios nos quais ela nos conduz, pois são sempre Revelação de Deus.

Eu queria tirar conclusões somente por mim mesmo, porém, este livro foi feito para ser acolhido e compreendido no “nós da fé da Igreja”. Sem o direcionamento e a interpretação segura da Tradição e do Magistério, a Bíblia Sagrada pode se tornar, por assim dizer, uma “caixa de Pandora”. Você pode chegar a conclusões absurdas e totalmente contrárias aos seus mais preciosos ensinamentos e princípios de ouro.

A Bíblia não fala do como as coisas foram feitas no seu objetivismo, como se tivéssemos falando de um método científico para comprovação de todos os meandros de desenvolvimento e composição de determinadas realidades, como uma tabela química. Ao contrário, as Sagradas Escrituras falam do sentido, do porquê, do para quê tal e tal realidade existe, desenvolvendo uma trama de sentidos e significados para a existência do Universo e do Homem. É como uma viagem que só pode ser realizada e aproveitada, com todos os seus matizes, revezes, ganhos e perdas,  à dois: nós e o bom Deus. Note que usei o nós ao invés do eu. Estou empreendendo tal viagem ainda hoje; buscando conhecer sempre mais, amando e se esforçando por viver esta Palavra de Vida, para que se torne viva, na minha vida, em nossa vida, na vida do mundo.

Desse emaranhado de símbolos e significantes, de sentidos e vivências, de buscas e descobertas, de comunicação e recepção, encontramos uma resposta segura e comprovada no Magistério da Igreja, no Concílio Vaticano II, através da Constituição Dogmática Dei Verbum, que trata sobre a Revelação Divina.

Avançando um pouco mais temos alguns outros documentos de máxima importância para a compreensão do que significa e representa a Bíblia Sagrada para a nossa Igreja. Um deles é de 15 de abril de 1993, da Pontifícia Comissão Bíblica: A Interpretação da Bíblia na Igreja.

Não poderíamos deixar de recordar a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, do Papa Bento XVI, sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja, de 30 de setembro de 2010.

Espero que você embarque também nesta viagem! Não perca tempo com pequenas e insignificantes coisas. Mergulhe com vontade nesta aventura do ler, compreender, viver e se tornar a Palavra de Deus neste mundo, realizando a maior e mais profunda revolução, a do amor.

Pe. Ademir Santos de Oliveira
Assessor Diocesano do Setor Juventude

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