A força do Terço na vida da Igreja

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O último mistério do Rosário, em que contemplamos como Nossa Senhora é glorificada pela Santíssima Trindade, é visto assim pelo Papa João Paulo II: “Ela resplandece como Rainha dos Anjos e dos Santos, antecipação e ponto culminante da condição escatológica da Igreja”. Esse conceito papal está na Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae”, de 2002, um dos tantos legados marianos deixados pelo antecessor de Bento XVI. João  Paulo II foi também o papa que enriqueceu os mistérios do Santo Rosário, ao acrescentar-lhes os Luminosos.

Não é de hoje, porém, que os papas incentivam os fiéis a rezar o Terço, uma prática piedosa ao mesmo tempo contemplativa, meditativa e suplicante. De  Leão XIII a João Paulo II, foram publicadas seis encíclicas, uma exortação apostólica e uma carta apostólica. São elas: “Supremi Apostolatus Officio“, de 1883, Carta Encíclica de Leão XIII; “Superiore Anno”, de 1884, Carta Encíclica de Leão XIII; “Magnae Dei Matris”, de 1892, Carta Encíclica de Leão XIII; “Ingruentium Malorum”, de 1951, Carta Encíclica de Pio XII; “Grata Recordatio”, de 1959, Carta Encíclica de João XXIII; “Christi Matri”, de 1966, Carta Encíclica de Paulo VI; “Marialis Cultus”, de 1974, Exortação Apostólica de Paulo VI; e “Rosarium Virginis Mariae”, de 2002, Carta Apostólica de João Paulo II.

 De “Saltério dos Leigos” a Sacramental

É difícil precisar quando começou a oração do Santo Rosário. Prática que surgiu aproximadamente no ano 800 “à sombra dos mosteiros, como Saltério dos leigos”. Isso porque os monges rezavam os salmos (150), enquanto os leigos, que em sua maioria não sabiam ler, aprenderam a rezar 150 Pai-Nossos. Com o passar do tempo, se formaram outros três saltérios com 150 Ave-Marias, 150 louvores em honra a Jesus e 150 louvores em honra a Maria.

O Rosário, na forma como o conhecemos, data de 1206, quando, segundo tradição da Igreja Católica, a Virgem Maria apareceu a São João Domingos Gusmão e o entregou como uma arma poderosa para a conversão dos hereges e outros pecadores daquele tempo. Desde então sua devoção se propagou rapidamente em todo o mundo com incríveis e milagrosos resultados.

Em 1365 fez-se uma combinação dos quatro saltérios, dividindo as 150 Ave-Marias em 15 dezenas e colocando um Pai-Nosso no início de cada uma delas. Em 1500 ficou estabelecido, para cada dezena, a meditação de um episódio da vida de Jesus ou Maria, e assim surgiu o Rosário de quinze mistérios. João Paulo II acrescentou, em seu pontificado, outros cinco mistérios.

O dia 7 de outubro é dedicado à  Virgem do Rosário. Para Bento XVI, “o Rosário é o meio que nos dá a Virgem para contemplar a Jesus e, meditando sua vida, amá-lo e segui-Lo sempre fielmente”.

O poder das  contas do Terço não se caracteriza como amuleto, muito menos é antibíblico. Atentemos a este paralelo descrito nos Atos dos Apóstolos: “Deus realizava milagres extraordinários pelas mãos de Paulo, a tal ponto que pegavam lenços e aventais usados por Paulo para colocá-los sobre os doentes, e estes eram libertados de suas doenças e os espíritos maus eram afastados” ( At 19, 11-12). No Rosário, tanto as orações como o Terço que se utiliza são sacramentais. Todavia, o Terço só passa a ser sacramental depois de benzido por um sacerdote.

Tema constante entre os papas

Considerado “instrumento de luta” e “força espiritual” na vida da Igreja, a oração do Rosário é tema constante nos ensinamentos e nas exortações dos papas. Em 2002, João Paulo II – ao propor os Mistérios Luminosos – quis “mostrar plenamente a profundidade cristológica do terço”, ao incluir “os mistérios do ministério público de Cristo entre o seu Batismo e a sua Paixão”.

Mas já no século XII, a Igreja intensificou a oração do Terço nos momentos de dificuldade e tribulação. Em 1569, São Pio V consagrou-o oficialmente, atribuindo à sua recitação a destruição da heresia e a conversão de muitos pecadores. Pediu aos fiéis que rezassem o terço naquela época “de tantas heresias, gravemente perturbada e aflita por tantas guerras e pela depravação moral dos homens”.

Já Leão XIII (1878-1903), conhecido sobretudo pelas suas encíclicas sobre questões sociais, especialmente a “Rerum Novarum” (1891) – sobre as condições do trabalho –, escreveu pelo menos 16 documentos sobre o terço, incluindo encíclicas.

Conhecido como o “Papa do terço”, Leão XIII escreveu sua primeira encíclica sobre esta oração em 1883, no 25º aniversário das aparições de Lourdes. No texto, ele recorda o papel de São Domingos e como a oração do terço ajudou a derrotar os hereges albigenses no sul da França, nos séculos XII e XIII. São Domingos, dizia o Papa, “atacou intrepidamente os inimigos da Igreja Católica, não pela força das armas, mas confiando totalmente na devoção que ele foi o primeiro em instituir com o nome de Santo Terço”.

“Guiado pela inspiração e pela graça divinas”, prosseguiu o Pontífice, “previu que esta devoção, como a mais poderosa arma de guerra, seria o meio para colocar o inimigo em fuga e para confundir sua audácia e louca impiedade.”

Leão XIII também falou sobre a eficácia e poder do terço na histórica batalha de Lepanto, entre as forças cristãs e muçulmanas, em 1521. As forças islâmicas haviam avançado rumo à Espanha e, quando estavam a ponto de superar as cristãs, o Papa Pio V fez um apelo aos fiéis para que rezassem o terço. Os cristãos ganharam e, como homenagem por esta vitória, o Papa declarou Maria como Senhora da Vitória, estabelecendo sua festa no dia 7 de outubro, dia do santo terço.

Voltando à necessidade do terço em sua época, o Papa escreveu: “É muito doloroso e lamentável ver tantas almas resgatadas por Jesus Cristoarrancadas da salvação pelo furacão de um século extraviado e lançadas no abismo e na morte eterna. Na nossa época, temos tanta necessidade do auxílio divino como na época em que o grande Domingos levantou o estandarte do Terço de Maria, a fim de curar os males do seu tempo”.

Por sua vez, Pio XI (1922-1939) dedicou sua última encíclica – “Ingravescentibus malis” – ao terço, em 1937, o mesmo ano em que escreveu a “Mit brennender Sorge”, na qual criticava os nazistas, e a “Divini Redemptoris”, na qual afirmava que o consumismo ateu “pretende derrubar radicalmente a ordem social e socavar os próprios fundamentos da civilização cristã”.

Criticando o espírito da época, “com seu orgulho depreciativo”, o Papa disse que o terço é uma oração que tem “o perfume da simplicidade evangélica”, que requer humildade de espírito.

“Uma inumerável multidão, de homens santos de toda idade e condição, sempre o estimou”,escreveu. “Rezaram-no com grande devoção e em todo momento o usaram como arma poderosíssima para afugentar os demônios, para conservar a vida íntegra, para adquirir mais facilmente a virtude, enfim, para a consecução da verdadeira paz entre os homens.”

Já em 1951, Pio XII (1939-1958) escreveu “Ingruentium malorum”, sobre a oração do terço: “Categoricamente, não hesitamos em afirmar em público que depositamos grande esperança no Rosário de nossa Senhora como remédio dos males do nosso tempo. Porque não é pela força, nem pelas armas, nem pelo poder humano, mas sim pelo auxílio alcançado por meio dessa devoção, que a Igreja, munida desta espécie de funda de Davi, consegue impávida afrontar o inimigo infernal”.

Criado em ambiente mariano

Em 1985, o então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, admitiu – no livro-entrevista Informe sobre a Fé, com Vittorio Messori – achar que a declaração de que Maria é “a vencedora de todas as heresias” era um pouco “exagerada”.

Explicou que, “quando eu ainda era um jovem teólogo, antes das sessões do Concílio (e também durante elas), como aconteceu e acontece hoje com muitos, tinha algumas reservas sobre certas fórmulas antigas, como, por exemplo, aquela famosa ‘De Maria nunquam satis’ [de Maria nunca se dirá o bastante]”.

É oportuno observar que Joseph Ratzinger cresceu em um ambiente muito mariano. No livro Meu irmão, o Papa, George Ratzinger comenta que seus avós se casaram no Santuário de Nossa Senhora de Absam e que seus pais se conheceram por meio de um anúncio que seu pai colocou (duas vezes) no jornal do santuário mariano de Altotting. Os Ratzinger rezavam o terço juntos muitas vezes e, no mês de maio, participavam de numerosas celebrações de Maria e do terço.

Como explica no livro-entrevista, o cardeal, como prefeito do dicastério vaticano, passou por uma pequena conversão. “Hoje”,  acrescentou, “neste confuso período, em que todo tipo de desvio herético parece se amontoar às portas da fé católica, compreendo que não se trata de exageros de almas devotas, mas de uma verdade hoje mais forte do que nunca.”

Já na condição de Papa Bento XVI, declarou: “A oração do terço permite-nos fixar o nosso olhar e o nosso coração em Jesus, como sua Mãe, modelo insuperável da contemplação do Filho”. Era 12 de maio de 2010, no Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Ao meditar os mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos ao longo das ‘Ave-Marias’, observou: “… contemplamos todo o mistério de Jesus, desde a Encarnação até a Cruz e a glória da Ressurreição; contemplamos a participação íntima de Maria neste mistério e a nossa vida em Cristo hoje, também ela tecida de momentos de alegria e de dor, de sombras e de luz, de trepidação e de esperança”.

E concluiu:“A graça invade o nosso coração no desejo de uma incisiva e evangélica mudança de vida, de modo a poder proclamar com São Paulo: ‘Para mim viver é Cristo’ (Fl 1, 21), numa comunhão de vida e de destino com Cristo”.

Texto de Gabriel Arcanjo Nogueira.

 

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