Charlie Charlie Challenge!

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Todos nós conhecemos o poder imenso, tanto construtivo como destrutivo, que os meios de comunicação modernos alcançam. Uma notícia, um acontecimento, uma fofoca, uma ação cotidiana, pode se transformar em algo viral nas redes sociais, dando volta ao planeta diversas vezes ao longo do mesmo dia e atingindo bilhões de pessoas em todos os continentes.

Muitos são os exemplos, mais gostaria de tratar de um deles, bem atual, o chamado “popular jogo”: Charlie Charlie Challenge.

Sua popularidade é exatamente devida às redes sociais, que multiplicam o assunto em diversas abordagens.

Temerariamente ocorre uma pseudo invocação de um demônio mexicano, que após uma breve investigação, chegamos a saber que é inexistente, não sendo semelhante a nada em toda a história das crenças astecas e maias e nem no período da conquista espanhola.

O pseudo jogo é muito simples, e consiste em escrever numa folha de papel as palavras “sim” e “não” e sobre elas colocar dois lápis (ou canetas) em forma de uma cruz. O segundo passo dizer em voz alta (e em inglês) a frase “Charlie Charlie! (Challenge) Você está aqui?” para que o demônio Charlie se manifeste, movendo um dos lápis para o lado do “sim” ou do “não” na folha. Uma vez que o pretenso demônio Charlie demonstrou estar presente, ele estaria disposto a responder as perguntas dos participantes.

Assim que tomei conhecimento desta “virose”, sobretudo entre adolescentes e jovens, não parei de pensar o quanto ao longo da história da humanidade, os homens sempre tiveram uma curiosidade mórbida, ou até certa atração sobre as realidades maléficas e o ocultismo, com fascínio por histórias do “sobrenatural”.

Tudo o que se mostra como fato extraordinário, sobrenatural, particularmente ligado à realidade do mistério do Mal, atrai de forma quase irresistível  as mentes curiosas, cegamente credíveis, tornando-se presas fáceis de charlatanismos e outras manifestações psíquicas e patológicas. Também social e culturalmente, estamos numa mudança de época, em que a  busca pela Antiguidade pagã toma várias formas em nossa cultura atual, sendo detectado por diversos especialistas, aquilo que se convenciou chamar “Era Neopagã”.

Este fenômeno espantoso faz-nos pensar em quanto malefício a descristianização, a secularização, a falta de esclarecimento em materia de fé e o vazio que se criou ao abolir Deus da vida de nossas sociedades atuais, provoca delirios e desvarios nas pessoas mais suscetíveis de serem influenciadas com idéias fantasiosas e fabulosas e a banalização totalmente descarada do “mistério do Mal”. Esse tipo de “brincadeira” entre adolescentes e jovens, manifesta amplamente e visivelmente, aquilo que muitos não enchergam e não querem enxergar: a banalização de tradições e formas de conhecimentos que, ao não passarem pelo crivo da razão científica, tecnicista, reducionista, deixam à mercê toda uma geração que não sabe lidar com a dimensão da fé, do espiritual, da realidade transcendental da vida, e acabam, sem referências sólidas, simples e claras, caindo em toda sorte de “modismos espiritualistas”e descrédito em toda e qualquer realidade, além do materialismo em que vivemos.

Um exemplo, o grande psicalista Carl Gustav Jung, diante de um fenômeno cultural de diversos relatos de visões no céu de objetos não identificados, (Ovin’s) que explodiu sobretudo nos Estados Unidos entre as décadas de 40 e 50 do século passado, e deu origem à chamada Ufologia, escreveu um livro com o sugestivo título de: “Um mito moderno sobre coisas vistas no céu”, escrito em 1958. Neste livro Jung levanta a polêmica questão sobre os discos voadores e seus tripulantes, os ET’s. Seriam reais ou produtos da mente humana, mais particularmente do inconsciente coletivo? Trabalha ela o nascimento de um novo mito “moderno”, as necessidades psicológicas que o motivam, e sua roupagem atual. Num resumo bem simplista e do pouco que me recordo, o autor sobretudo chama a atenção para o mecanismo que o ser humano tem de, para não enfrentar os problemas cotidianos e os desafios da vida, volta-se para o extraordinário, para as coisas que estão fora de seu alcançe e compreensão, na busca de uma solução mágica ou como fuga da realidade.

Outro exemplo deste fenômeno cultural, podemos encontrar a partir de fins do século XIX e inícios do século XX, sobretudo na Europa, em particular em países como França, Inglaterra e Alemanha,  onde surgiu com novo vigor uma grande corrente de tradição ocultista, exotérica, espiritualista, magia negra, advinhações, leituras da sorte, etc.  É muito interessante perceber que no período alto do iluminismo, essas manifestações vieram à tona com uma força que chamariamos hoje de: “viral”.

Muitos intelectuais, escritores, politicos, artistas, formavam como que uma grande irmandade ocultista. Há uma lista enorme desses escritores ocultistas, sobretudo nos séculos XIX e XX, que influênciaram o pensamento de uma geração e que se tornou terreno fértil para fenômenos como este do “Charlie, Charlie”,   presenciado por nós.

Neste período ocorre uma grande mistura de idéias religiosidade popular, orientalismos, com práticas ocultistas, e como diz um estudo da professora, doutora do Departamento de História da IFH-Unicamp, Eliane Moura Silva, que neste período surgiu umas: “formas de espiritualismos que não são obra das grandes instituições eclesiásticas, mas que fornecem elementos para a construção de identidades perdidas, de memórias coletivas, de experiências místicas e correntes culturais e intelectuais não ortodoxas.”

Nestes tempos era moda tudo o que fosse ocultismos, invocações de espíritos, etc, onda esta que influênciou em muito a sétima arte nascente, o cinema, que com muitas produções cinematográficas, difundia essas mentalidades pelo planeta e ainda hoje, os filmes que arrastam adolescentes e jovens são nesta linha: de vampiros, de bruxas, de seres encantados, de paranormalidades, etc.

É portanto, dentro deste amplo contexto que devemos nos colocar a refletir e a pensar, o que acredito ser uma dessas manifestações, sobre essa disparatada, de mal gusto, sem sentido algum, irreverente, “brincadeira de se evocar as forças do mal e os espíritos demoníacos.

Neste texto, não quero e não vou entrar na discussão das realidades demoníacas ligadas à dimensão da fé cristã, pois este assunto poderá ser tema de outro momento de reflexão.

Creio que o mais importante perceber e discutir é o vazio espiritual, de vida interior, de auto-conhecimento, de conhecimento de Deus e da fé crista, em que está sendo jogada uma grande parcela das novas e futuras gerações.

Numa sociedade líquida como é a nossa, toda crença se dilui, se mistura, se confunde, se modela, e não estamos preparados para olhar com criticidade e objetividade este fenômeno epocal.

A nós, jovens cristãos, cabe a responsabilidade com quê estudamos a nossa fé, vivemos a nossa fé, divulgamos a nossa fé. É preciso que encontremos mais caminhos do que já temos, de realizar o que o Papa Francisco sempre nos exorta: ser uma Igreja em saída; uma Igreja missionária; uma Igreja que olha para as pessoas neste mundo com misericórdia (cuidado para não confundir com “dózinha”…rsrsrsrsr). Ter misericórdia não é ter dó do outro, sentir-se apenas penalizado, mais é, como nos ensina a parabola do Bom Samaritano, colocar-se no lugar do outro; auxilia-lo para que possa se restabelecer e por-se novamente a caminho, conduzindo a sua vida.

Desta forma, é o momento que devemos romper os limites extreitos de nossos grupos de jovens, e somar forças num grande movimento de articulação de toda a juventude, no Setor Juventude de nossa Diocese.

Mãos à obra na Evangelização da Juventude!

Pe. Ademir Santos de Oliveira
Assessor do Setor Juventude – Diocese de Santo André

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