Consu-missão

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Certa vez, ouvi uma pequena história que narrava a conversa entre um palito de fósforo e uma vela. O fósforo dizia à vela que precisava acendê-la; a vela, por sua vez, toda receosa, dizia ao fósforo que tinha orgulho de sua linda forma e, principalmente sentia medo de sentir o fogo lhe queimar por inteira, pois isso doía muito e iria fazer com que depois de um certo tempo ela sumisse por completo, quando o fósforo sabiamente lhe respondeu que ambos haviam sido criados para um propósito e que se este não fosse alcançado, sua existência teria sido em vão, disse também que enquanto ela fosse se permitindo ser consumida pelo fogo, sua energia seria transformada em luz, de grande importância para muitas pessoas; até que, por fim, não sem medo e já pressentindo a dor, a vela acaba por consentir ser acesa.

Refletindo sobre essa breve narrativa, não pude deixar de me colocar no lugar da vela, e este é um convite que faço também a você. Quantas vezes não me deixei dominar pelo medo, recusei os caminhos que me foram confiados alegando tantas justificativas, as quais nem mesmo eu era capaz de acreditar, esquecendo-me de que tentava, sem sucesso, enganar Àquele que conhece muito mais do que eu meus medos e angústias, tentando enganar Àquele que, assim como eu, sentiu medo, mas firmemente respondeu ao Pai: “Meu Pai, se possível, que este cálice passe de mim. Contudo, não seja feito como eu quero, mas como tu queres”? (Mt 26, 39)

Neste mês de outubro, nossa Igreja particular ora pelas missões e, especialmente, por nossos missionários, mas engana-se aquele que pensa serem missionárias apenas almas benevolentes que se lançaram ao mundo, entregues aos ventos do norte e do sul batendo de porta em porta anunciando que Jesus Cristo é amor; pois, sem desmerecê-los, não podemos esquecer que, como a vela, cada um de nós recebeu do Criador uma incumbência, um propósito a ser cumprido nesta terra e, juntamente com este propósito, recebemos ferramentas adestradas para o cumprirmos com determinação e coragem.
Coragem!!!

Eis ai a palavra-chave para entender a dimensão mais difícil da “missionariedade”, já que ser missionário emprega um despojamento tal de si mesmo, que conduz a nossa total aniquilação e consumo. Ser luz do mundo (Mt 5 13-16), nesse aspecto, transcende uma visão puramente mecânica de simplesmente brilhar, irradiar, ter destaque, mas ganha um significado de resignação, entrega e pertença. Ser missionário será, muitas vezes, não citar o nome de Jesus, mas agir por meio de gestos como o calar-se, ouvir, aconselhar, permitir-se, ser presença do Cristo na vida do outro. Afinal de contas, o próprio Jesus não veio ao mundo para fazer propaganda de si mesmo, mas para conduzir-nos a uma vida piedosa de amor e valorização do outro, ensinando-nos mais do que por palavras a amar, assim como o Bom Samaritano (Lc 10, 30-37) que, embora odiado por muitos, se coloca à disposição e a serviço de todos.

Assim, a missão passa a ser não uma obrigação, mas um não caber-se em si, um transbordar que inconscientemente alcança o outro, uma entrega sem reservas de si mesmo aos propósitos cristãos de amor ao Deus que habita em mim e em você. Ser missionário é ser Cristo no trabalho, na família, com os amigos, na balada, nas discussões, no ônibus e em cada atitude de nossas vidas. A missão é consumir-se por inteiro nas pequenas atitudes e palavras do dia-a-dia, nas mais ínfimas relações, pois a África, o Haiti, a Palestina são aqui.

E você, já se permitiu consumir hoje?

FabiFabiana Amorim Siqueira de Souza – Paróquia Santa Maria Goretti, Santo André – Utinga. Formada em pedagogia, filosofia, está concluindo a pós-graduação em religião e cultura pela Faculdade Católica Nossa Senhora da Assunção (UNIFAI). É Catequista de Crisma e trabalha na área de inclusão, como intérprete de LIBRAS.

Sobre o Autor

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