Diário de um seminarista – Congresso Eucarístico – 3ª Parte

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Por Hamilton Gomes, seminarista e correspondente.

18 de agosto de 2016, quarto dia – Pastores e ovelhas de mãos dadas: uma cena vocacional interessante

Mais um dia na bela Belém, agradeço novamente a quem aqui volta para sentir um pouco os ares do XVII Congresso Eucarístico Nacional. Gostaria muito que mais pessoas pudessem ter essa oportunidade. A própria dinâmica da cidade nos ensina. Hoje saí de casa às 6h50 e peguei, sob sol já forte, a linha UFPA/Ver-o-peso. Esse ônibus me deixou em frente à Sé de Belém. Hoje, após preferir outras igrejas, enfim, fui à Catedral Metropolitana de Santa Maria de Belém.

A Catedral belíssima fica no complexo chamado de “Feliz Lusitânia”, um pedaço de Belém que relembra muito seu passado de colonização portuguesa. Em frente há uma praça com canteiros bem arrumados com flores vermelhas e pequenas.

O que me levou à Catedral, contudo, não foi apenas o templo, nem seu entorno, mas a convocação feita ontem por Dom Alberto Taveira, no Portal da Amazônia, pedindo que além dos ministros ordenados, os seminaristas se fizessem presentes. E lá fui eu. Chegando à Catedral fui encaminhado por uma pessoa de Belém mesmo, junto com um seminarista da Diocese de Lajes  –  SC. Lá, os lugares reservados aos vocacionados ao sacerdócio já estavam cheios. Com o costume, ficamos eu e este colega do Sul em pé, junto a um púlpito daqueles antigos, esculpido em madeira, bem à frente. No presbitério grandes e muitas fileiras de cadeiras para acolher os sacerdotes, os diáconos estavam nos primeiros bancos da assembleia.

Graças a Deus os padres vieram em grande número, e até promoveram o desalojamento de alguns seminaristas que estavam muito confortáveis em seus lugares. A missa foi presidida pelo núncio apostólico, Dom Giovanni d’Aniello, que nos visitou em Santo André há quase dois anos.

Uma cena muito interessante foi a entrada e a saída dos bispos. Acho que nunca vi algo assim, tantas pessoas usando mitras juntas, recordou-me muito aqueles vídeos do Concílio Vaticano II. A Catedral de Belém tem um estilo clássico, me passou essa cena.

O Convite do Núncio e do Arcebispo de Belém foi que cada pessoa rezasse pelas vocações nas suas dioceses. Recordei-me de muitos sacerdotes e genericamente, entreguei todos os nossos padres a Deus, a fim de que nosso povo consiga ter padres santos.

Saindo da Catedral fui à aventura de saber qual ônibus pegar. Andei alguns quarteirões de comércio intenso, tecidos, frutas, eletrônicos, até uma livraria católica estava em meu caminho. Consegui dirigir-me ao Hangar com o ônibus “Sacramenta”. O Sacramenta foi, literalmente, uma boa ligação entre a fé celebrada e a fé refletida. Com este micro-ônibus fui ao Simpósio Teológico.

Aos que me conhecem, sabem que não gosto de entrar em coisas pela metade, daí, fui andar na “Mini Expo Católica”, lá deparei-me com estandes diversos, dentre eles o de uma fábrica de Sinos de Diadema. Conheci algo típico do Pará: o carimbó, dança que estava mexendo com todos os presentes com o incentivo de um grupo local. O carimbó é muito legal, tive a oportunidade de ouvir (e bater o pé, pois não sei dançar) a invernada marajoara.

Na palestra do Simpósio Teológico estava um quase vizinho nosso, o bispo de Osasco, Dom João Bosco dos Santos. Ele relacionou a Eucaristia com a família e as suas dificuldades, tendo como pressuposto a Amoris Laetitia, do Papa Francisco.

O centro do dia, a meu ver, não foi a dança, não foi a palestra, mas algo composto de dois polos: a missa na Catedral e uma cena que vi sentado na palestra. Ouvindo um bispo, bem perto de nós (Pe. Zezão, Pe. Edmar, Glauber, Maria Ivanilde e eu) estavam dois arcebispos: o Dom Moacir Vitti (de Ribeirão Preto) e o Dom Paulo Mendes Peixoto (de Uberaba  –  MG). Chamou-me a atenção que eles estavam escutando um irmão bispo, ao lado de pessoas até sem estudo, com uma iniciação cristã deficiente.

O que unia essas pessoas, de prelados a recém-convertidos?

A fé, em Jesus, na Eucaristia, que não exclui as responsabilidades e títulos, mas os faz ter sentido para a construção dessa obra de Deus que é a Igreja, onde pastores e ovelhas andam de mãos dadas.

Vi que tudo era bom, e, em parte, deve continuar assim. Quarto dia!

 

19 de agosto de 2016, quinto dia – Unidade na diversidade, esta é a Igreja da Eucaristia

Obrigado a você que volta mais uma vez aqui para acompanhar esta história! Estamos já nos encaminhando para a metade final do Congresso!

Hoje comecei o dia com um rito diferente, fui à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Centro Comercial de Belém. Para chegar lá tive de contar com a intercessão de São Miguel, para, como se diz: “segurar a casula (romana) do padre”, e ele segurou. Às 8h eu estava descendo do ônibus, que pegou muito trânsito até chegar no destino, entrei na Igreja errada (Sant’Anna), cheguei à certa e ainda demorou. São Miguel é o santo, rsrsrs… Brincadeiras à parte, rogai por nós São Miguel!

Lá, participei da missa em rito extraordinário, como nunca havia participado de uma na vida, permiti-me fazer isso aqui em Belém. Agora, já participei. Rsrsrs…

Pela tarde pude voltar ao Hangar e participar de uma fala muito boa de Dom Erwin Kräutler, bispo emérito da prelazia do Xingú, no centro do estado do Pará. Dom Erwin fez uma ótima explanação que relacionou Eucaristia e a Ecologia. O pano de fundo desta fala foi a encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco, além de sua presença na Amazônia desde 1965, quando a realidade paraense era muito diferente. Dom Erwin falou por histórias, citações, imitações meio caricaturadas e muita lucidez diante dos problemas ecológicos, que, no fundo, são reflexo da falta de diálogo entre os homens.

Após este belo momento, fui com alguns membros da diocese para casa. De lá, a família onde me hospedei quis ir à Basílica de Nazaré e à Estação das Docas, este último era um conjunto de galpões que foram reformados e ganharam lojas e restaurantes, um local muito agradável.

 

20 de agosto de 2016, sexto dia – A Eucaristia e o serviço aos pobres

Desde o início do Congresso uma relação que sempre é feita, de cardeais aos mais iletrados, é a de que a Eucaristia implica num compromisso com Deus e com as pessoas, acaba num compromisso social. Quando esta parte é feita, faz muito bem louvar a Deus, com toda honra e toda glória.

Meu planejamento era confessar-me no centro da cidade, ir ao museu de arte sacra e depois ir ao Mangueirão. Deus fez seu plano. E modificou tudo.

Me de vontade de ir à paróquia do bairro, a Santa Maria Goretti, e lá fui eu, queria confessar, mas me disseram que a missa seria depois da missa. Esperei, afinal, estou num congresso eucarístico, negar a missa não dá, né.

A missa em questão era a de sétimo dia dum antigo pároco, o Pe. Salvino Mombelli, SX (xaveriano), que fundou as comunidades da região. A igreja ficou quase cheia, algo impressionante para uma sexta-feira de manhã. O que foi dito de Pe. Savino foi muito enriquecedor, uma multidão de pessoas que foram ajudadas com um abraço, com um remédio, com uma oportunidade, com alimentos, com justiça. Foi significativo participar desta eucaristia, presidida por Dom Adolfo Zon Pereira, bispo do Alto Solimões – AM (cidade de Tabatinga, divisa com o Peru e a Colômbia).

Depois me confessei a Cristo, que se usou de um sacerdote, seu instrumento, no caso o Pe. Nelo, xaveriano também, uma palavra muito precisa para a misericórdia de Deus.

Nisso tudo, o relógio apontava com os dois braços para o alto. Daí fui comer algo e, como não conheço os lugares muito bem, rumei para o Shopping, donde depois poderia fazer uma conexão para o lugar que iria na parte da tarde.

No Boulevard Shopping me surpreendeu a presença de uma capela. Na capela via a simplicidade e sinais de vida, as pessoas passam ali e me perguntei, quanta falta um ambiente como esse, mesmo que pequenino, faz em São Paulo. Nunca tinha entrado numa capela de shopping.

Dali fui para o Hangar, gostaria de comprar uma coisa ou outra para levar. Conversei muito com as irmãs do Apostolado Litúrgico, foi uma troca de ideias interessante, aproveitando a feira católica quase vazia sem os participantes do simpósio teológico.

E, depois, lá vou eu para o mangueirão, sempre contando com a solidariedade do paraense, que me indicava quais ônibus deveria pegar. Foi uma grande alegria rodar Belém a pé, de ônibus e uma vez de taxi. Quem me conhece sabe que gosto muito de “sentir com o povo”, é uma expressão já batida, mas que gosto muito. Ouço histórias únicas, choros, alegrias, etc.

No mangueirão, na missa com Dom Cláudio, o centro, para a minha memória, foi ver uma ministra da comunhão que ficou ao meu lado, já bem idosa, com tremores nas mãos, segurando a ambula de barro do Congresso. Aquela presença me fez um bem tão grande, que não consigo narrar. Fez-me pensar no serviço dos ministros extraordinários, lembrei-me muito deles por aquela irmã.

Depois seguiu-se longa procissão de bispos até seminaristas, contei quase 100 bispos, foi muito bonito. Tudo em honra a Jesus.

Na volta, pude ver, pela janela do ônibus, a paixão do povo também pela festa do futebol, haveria jogo do Paysandu, um dos grandes times daqui.

Que saibamos com fé olhar para Jesus e olhar para o nosso próximo, nossas eucaristias serão muito mais ricas.

 

21 de agosto de 2016, sétimo dia – Comunidade e caminhada

O último dia do Congresso Eucarístico reservou muitas alegrias. Pela manhã fui á comunidade Jesus Libertador, na mesma rua Paulo Cícero, bairro do Guamá. Lá, estava Jesus exposto desde a noite anterior e a comunidade se preparava para a procissão eucarística.

À chegada do Pe. Carlos saímos às ruas, havia um grande contraste entre a procissão, organizada à muito custo pela Pastoral da Guarda e as próprias ruas, marcadas pelos traços típicos das periferias desassistidas: esgoto a céu aberto, casas com muitos problemas, pessoas indiferentes, apesar de na média haver grande respeito à procissão.

Chegamos à Paróquia Santa Maria Goretti, onde estavam também Dom Edson de Castro Homem e o Pe. Wallace, ambos da Diocese de Iguatú, estado do Ceará. Dom Edson, na missa, falou muito de Maria, tratando de sua morte e da esperança de sua assunção. A paróquia foi muito acolhedora com todos os que se hospedaram lá, creio que cerca de 8 pessoas, bispos, padres, religiosos e leigos.

Pela tarde fui para a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, em certo ponto, o ônibus “Guamá/UFPA” só tinha gente que ia à missa. A missa de encerramento seguida de procissão eucarística. Foi um momento muito bonito de fé do povo do Brasil, milhares, milhares e milhares de pessoas cantando alegres, seguindo e acompanhando o grande ostensório com Jesus Eucarístico. Ao fim, chegando à praça da Catedral, houve a bênção do Santíssimo, realizada por Dom Cláudio Hummes.

A procissão foi demorada, mas a banda Sal e Luz soube animar muito bem todos os momentos. Após a bênção houve a queima de fogos e uma apresentação muito legal do Coral. Quando vi, Dom Alberto estava bagunçando com os cantores do coral. Acabou o Congresso. Deus seja louvado! Obrigado a todos que acompanharam estas linhas!

Com a graça de Deus, espero encontrar a muitos no próximo Congresso Eucarístico Nacional, que pelo que ouvi falar, será em João Pessoa-PB!

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