Igreja Ontem, Igreja Hoje: Missão

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Esta reflexão pretende apresentar alguns aspetos de nossa missão como Igreja diante da sociedade, comparando a situação dos anos 1965 até 85 e a nossa situação hoje, de 1995 para cá.

 A base é e sempre será a mesma: “Partir de Jesus Cristo” enviado do Pai para abrir um caminho de esperança para o povo.. Ele escolheu a pobreza, a simplicidade, e presença no meio do povo simples, quebrou muitos “tabus”: a lei do sábado, a impureza criada pela doença, a desvalorização da mulher.o valor da oração, do jejum, da esmola, mas nunca quis ser visto pelos outros, pelo contrário: pedia aos curados que não comentem. Formou discípulos escolhidos no meio de pescadores, cobrador de impostos, todas, pessoas simples e  convidou a partilhar com Ele uma vida de amor. Deu exemplo: criticado e odiado pelos fariseus, sacerdotes, doutores da lei e outras autoridades, ficou firme nas suas convicções e aceitou ser condenado, ser crucificado, mas ressuscitou e está vivo para sempre no meio de nós.

Qualquer trabalho missionário que se afasta desta base não entra e nunca entrará na nossa missão. A vivência amorosa com Jesus é e será sempre a Luz de nosso caminho.

Ontem: Quem conheceu a Missão entre os anos de 1965 e 1985 lembra da situação vivida no ABC: migrantes que chegavam de todo canto do Brasil, cidades que cresciam tão rapidamente que era difícil achar terreno barato. As favelas cresciam, faltava tudo: água, luz, asfalto, escolas, higiene, transportes, saúde. Também foi a época da ditadura militar: faltava liberdade, havia censura nos jornais, na TV, escuta telefônica, pessoas desapareciam, levadas pela polícia política (DOPS, OBAN) e que reapareciam após ter sido torturadas (alguns nunca mais apareceram). Parecia que o povo estava sendo anestesiado.

A Igreja na diocese de Santo André, estava sendo orientada pelo bispo Dom Jorge (até 1975), depois Dom Claudio.  Os mais conscientes tentavam reagir: reuniões clandestinas, panfletos distribuídos durante a noite, grupos cristãos mais conscientes: começava a Ação Católica Operária, a Associação das Donas de Casa, as Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral Operária. (Os Movimentos de Ação Católica existiam, mas foram perseguidos pela ditadura (JOC, JEC, JUC, etc).

Aos poucos as comunidades paroquiais se sentiam motivadas para participar das lutas do povo, num espírito Evangélico baseado na Palavra de Deus e no exemplo de Jesus Cristo. Grupos de cristãos e outros iam juntos à Prefeitura, à Câmara Municipal, aos Centros de Saúde, ao Departamento do Trânsito; levavam faixas e exigiam das autoridades que tomassem atitudes a favor do povo carente. Foi assim que o povo conquistou muitas melhorias.

A partir de 1978, as grandes greves recebiam o apoio dos cristãos com a presença do Dom Claudio. A Missão se realizava nos bairros e nas comunidades paroquiais a partir das celebrações, reuniões, oração, reflexão em comum, amizades, partilha. Muitos cristãos descobriram a sua vocação a partir desta movimentação. Começou a crescer a Pastoral das favelas, juntamente com o Movimento de defesa dos favelados (MDDF) O1º de maio era preparado por tríduo apresentando, ao lado de São José Operário e de Jesus carpinteiro os problemas dos trabalhadores  do momento.

HOJE, (a partir de 1995, mais ou menos) tudo que escrevemos acima a respeito da presença viva de Jesus no meio de nós continua ,mas  a situação mudou muito: a ditadura militar acabou, voltou a liberdade, os problemas de água, esgotos, asfalto, telefone foram resolvidos. Novos problemas apareceram: a violência aumentou muito, as drogas se espalham em todo lugar, crescem os casos de linchamento, pessoas que fazem justiça com as próprias mãos, o sistema educativo das escolas não corresponde mais às exigências da nova realidade, os casais se separam com muito mais facilidade, celulares, smartphone, Internet, tablets (os famosos joguinhos) passam a ocupar muito tempo na vida das crianças, dos jovens e dos menos jovens e acabam criando um isolamento pernicioso: não se vê muito grupos brincando ou cantando.Os trabalhos temporários (terceirização) favorizam uma total insegurança na vida do trabalhador, sobretudo jovem, que não pode mais fazer planos para o futuro, a liberdade sexual que começa cada vez mais cedo tirou dos jovens o valor da fidelidade; o dinheiro virou cada vez mais o novo deus e os homens políticos estão longe de dar bons exemplos. Os jovens que estudam em Faculdades aumentaram muito, mas, recebendo o diplome, não encontram emprego que corresponde. A vida melhorou para muitos e piorou para outros.

A nossa Igreja (quer dizer NÓS) deve encontrar novos meios para realizar a Missão que Jesus nos confia.Na oração da “Ave Maria” dizemos: ”rogai por nós, pecadores AGORA”. O “AGORA”  nos dá a certeza da presença carinhosa de Maria ao alado de seu Filho Jesus para cumprir a nossa missão.

A AÇÃO MISSIONÁRIA DA IGREJA torna-se mais difícil: houve grande esforço para tornar as Eucaristias mais dinâmicas, a catequese se renova, temos muitos grupos jovens animados, o Plano Diocesano de Pastoral apresenta as urgências, mas todos estes esforços não dão o resultado esperado: a evasão dos católicos continua, a atividade paroquial torna-se muito centralizada nas igrejas (prédio).

Existe um grande crescimento dos “Grupos de Oração”. A oração foi tão importante na vida de Jesus: passava noites em oração silenciosa com o Pai. Os apóstolos, impressionados, pediam: ”Ensina-nos a rezar”. Mas não podemos pensar que Jesus ficava só rezando: Jesus andou tanto pelas cidades e aldeias, curando os enfermos, multiplicando o pão, formando os apóstolos, criticando severamente fariseus, sacerdotes, doutores da Lei, expulsando os vendedores do Templo: foi tão mal visto que foi preso e crucificado. A vida de Jesus é um todo: não podemos ficar somente com o aspecto da oração.

A grande chance da Igreja atual é a chegada do Papa Francisco: ele disse que uma igreja fechada no templo é uma igreja doente. Uma igreja que se abre ao mundo é igreja que corre risco de acidentes, mas realiza a sua missão. Sonhamos com este tipo de igreja que conseguiria evitar as 3 grandes tentações do mundo atual e de sempre: o dinheiro, o poder e o prazer. Dinheiro e poder são as grandes tentações dos pastores e da nossa sociedade; o prazer ficou muito bem apontado pela CF 2014: “Tráfico humano”: foi uma excelente oportunidade  para falar do respeito da pessoa humana, especialmente das mulheres. O assunto da CF também estava muito ligado ao dinheiro. O exemplo que deveria vir das autoridades do país decepciona cada vez mais o nosso povo que tanto esperou uma melhoria e fica decepcionado. A nossa igreja deve dar o exemplo, principalmente os religiosos que tem uma consagração especial.

O nosso Papa abre novos caminhos baseados no exemplo de Jesus que escolheu viver no meio do povo, partilhar “as alegrias e angústias do povo” (Vaticano II), acolher os pecadores e marginalizados dando exemplo da pobreza e da simplicidade. Jesus formava os apóstolos e hoje preparamos cristãos adultos na Fé capazes de comunicar esta Fé a partir do exemplo, da solidariedade, da partilha, tentando erradicar os vícios que destroem a nossa sociedade.

O QUE FAZER? Só tem um jeito: SER A LUZ DO MUNDO: não podemos esconder a Luz debaixo do guarda roupa. As nossas Comunidades devem olharo mundo, e, unidos, enfrentar os desafios de hoje:

Os jovens tentados pela droga, o sexo, o isolamento da internet ou dos joguinhos.

Junto com os pais e professores enfrentar os problemas da educação: pais meio perdidos e professores que se sacrificam sem ver resultados.

Formar para uma vida de Amor verdadeiro onde o casamento é compromisso sério e não experiência passageira.

Ao lado dos que tem hoje vida melhor, agir a favor de toda a multidão dos pobres: doentes, favelados, mulheres abandonadas com os filhos, jovens criados por padrastes ou madrastese procuram viver na rua com os amigos.

Lutar por uma legislação que dá estabilidade aos jovens de empresas terceirizadas

Apoiar as iniciativas dos que criam economia popular e tomam iniciativas audaciosas.

Participar das ações a favor da saúde do nosso povo: maior respeito aos doentes para diminuir o tempo de espera nos hospitais e Centros de Saúde.

Ter a coragem de enfrentar o ambiente de violência. Onde um sozinho não pode nada, a Comunidade unida conseguirá maior tranquilidade pelo nosso povo.

Querer que a Fé entre na política para condenar a corrupção e apoiar o projeto de plebiscito a favor duma política honesta.

Ter uma Pastoral Familiar que visita as famílias para que, a partir da amizade, as nossas familias possam viver o Amor sonhado no dia do casamento.

O povo de rua precisa de amor muito mais do que de marmitex: milhares vivem nas ruas: adultos, mas também muitos jovens.

ORAÇÃO sim, mas conservando as duas palavras: Oração e Ação. Somos capazes de sair das nossas igrejas?

Este programa é tarefa dos leigos orientados pelos sacerdotes. Enfrentar juntos a luta contra a grande “Besta” do livro do Apocalipse. A leitura orante da Palavra de Deus, os grupos de rua, as escolas da Fé, as visitas missionárias a Eucaristia são a nossa grande força. Vamos redescobrir a “Alegria do Evangelho” como nos convida o Papa Francisco Para caminhar, podemos viver um ecumenismo prático, pedindo a colaboração dos evangélicos por todos os problemas que tocam a vida de nosso povo, lembrando sempre da presença do Espírito Santo.

*Padre José Mahon é da congregação Filhos da Caridade e vigário da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Santo André.

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