Um João e outro João

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Por Fernando Altemeyer Jr. *

Para que precisamos ser santos? Para que saibamos que cada um de nós é uma pessoa única muito amada por Deus, cada qual com seus amores e suas dores, seus pecados e suas virtudes

Um é polonês, o outro é bergamasco. Um vem do mundo eslavo e se faz papa peregrino, o outro vem da diplomacia e se faz o papa do ecumenismo e da renovação eclesial.

Um nasce na casa 2 da rua Rynek, em Wadowice, filho de Emilia Kaczorowska e Karol Wojtyla, tornando-se operário, artista de teatro e atleta.

O outro nasce da família pobre de Brusicco, no distrito de Sotto il Monte, na região italiana de Bérgamo, fazendo-se diplomata, historiador e patriarca de Veneza.

Um é Karol Jósef Wojtyla, nascido em 18 de maio de 1920, quando ocorreu um eclipse solar. O outro é Angelo José Roncalli, nascido em 25 de novembro de 1881, um dos 13 filhos do casal Marianna Giulia Mazzolla e Giovanni Battista Roncalli. Nasceu o que seria mais um dos papas italianos, no mesmo ano em que viria ao mundo: Pierre Teilhard de Chardin, arqueólogo e filósofo francês, e o pintor espanhol Pablo Picasso. Angelo viverá em galpões nos fundos da casa de patrões, onde seus familiares trabalhavam na agricultura e no cultivo de bichos de seda.

O primeiro papa polonês escreverá abundantes textos como bispo de Roma por longos 27 anos. O outro fará pontificado breve de cinco anos revolucionando a história da Igreja e do mundo pós-guerra. João XXIII irá afirmar ao tomar posse da Diocese romana: “Quero ser apenas a voz que grita no deserto. Como João Batista, o precursor. Como o outro João, o discípulo e evangelista, preferido por Cristo e pela sua dulcíssima Mãe, o discípulo que na ceia repousou sua cabeça sobre o peito do Senhor e de lá extraiu aquela caridade da qual até à tarda velhice ele foi chama ardente e apostólica”.

Ambos serão canonizados em abril de 2014, pelo papa Francisco. São esperados 5 milhões de peregrinos para esta celebração litúrgica. Certamente será um dos maiores eventos religiosos do começo do século 21. É claro que cremos e professamos que só Deus é santo. Só Deus é o Senhor. Só Deus é o Altíssimo. Ser santo é um atributo único de Deus. Por filantropia e por amor foi estendido a toda a humanidade e mesmo reverberou no ato de amor por toda a criação pelo vigor e amor do Verbo Eterno que manifesta os louvores desta Palavra alegre e geradora que na plenitude do tempo se encarnou como humano.

Ser santo para um católico é fazer parte dessa comunhão eterna e cósmica daqueles que têm esperança e vivem o encontro com este Deus Vivo e Verdadeiro que se fez Verbo encarnado, mergulhado, compenetrado, vivenciado, sofrido e transformado. Ser santo é viver a cada dia um encontro pessoal no seguimento de Jesus. Ser santo é pertencer ao grupo daqueles que assumem seguir Cristo como caminho, verdade e vida.

Santo, um estilo de vida − Certamente Angelo e Karol fazem parte dos escolhidos por Deus para serem seus servos e amigos. Refletem em seus rostos aquele amor reluzente do Cristo que une as pessoas e as santifica e plenifica com o amor do único Deus que faz milagres e sinais prodigiosos.

Santo é sempre um exemplo de quem tem sede de plenitude. Ser santo é dispor-se a ouvir Deus nas veredas do viver. Ser santo é agir em favor da humanidade de cada pessoa. Ser santo é uma disciplina teimosa em favor da vida dos pequenos, dos excluídos e dos perseguidos.

A ideia central da santidade cristã é esta participação na vida de Deus. Viver no dia a dia as bem-aventuranças não como heroísmo, mesmo muitos heróis possam ser santos. É exemplo sem ser arrogante. Ser santo é um estilo de vida. Um jeito de encarar o mundo e os outros. O santo busca uma liberdade interior, daquele que degusta o sagrado e o ultrapassa.

Definia-se santo na antiguidade como testemunha ou mártir. Depois como as mulheres que permaneciam virgens e consagradas. No século 11, a oficialização da canonização tornou os santos figuras referenciais.

João Paulo II, o papa missionário, espelha uma santidade peregrina e uma coragem que germinou nas terras polonesas, testadas por dois totalitarismos: a bota nazista e a tirania stalinista do regime autoritário soviético.

Este santo Wojtyla, tal qual árvore de sua terra natal, às margens dos Montes Cárpatos, será vergado pela neve, mas não se quebrará. Ele representa a santidade do modelo da cristandade que resiste aos impérios e ao ateísmo surdo e antidemocrático. Ele se fez santo bebendo de três fontes: a Palavra de Deus expressa na catequese e na liturgia, o exemplo do cardeal Wyszynski e a leitura das obras místicas de São João da Cruz.

João XXIII, o papa bom, é o papa do diálogo e da serenidade. Aquele que fez acontecer o Concílio Vaticano II, que quis a renovação da Igreja e a evangelização de todos. Ele viveu as duas grandes guerras e quis ser o papa da paz contra as armas nucleares e o embate da Guerra Fria. Fez de sua vida um hino de louvor para o Deus dos pequenos e acreditava na Igreja toda ela voltada para os pobres. Sonhou uma Igreja unida e ecumênica. Sempre se apresenta como José, o irmão universal de todos, particularmente das crianças.

Para o papa Roncalli, é preciso viver a mansidão em cada palavra e gesto todo dia e naturalmente. É preciso discernir os sempre presentes e novos sinais dos tempos. Auscultar o mundo. Dialogar com todos. Compreender o humano. Suas fontes são a patrística, o mundo dos pobres e o diálogo com toda pessoa que busca a verdade e o bem.

Quem olha para o papa polonês vê nele um santo corajoso de quem buscar coragem e inspiração para lutar por um mundo mais humano com a marca do Cristo Redentor. Santo João Paulo é exemplo de força de Deus em nós.

Quem olha para o papa bergamasco vê um ser humano transparente que vê Deus em cada pessoa humana, de qualquer credo, nação ou pensamento. Vemos um homem santo, pois humilde e simples. Uma normalíssima com uma curvatura antropológica essencial, tal qual alguém sempre curvado e debruçado para os demais. São João XXIII é sinal de nossa fraqueza e debilidade humana sustentada pela mão amorosa de Deus.

Único coração − Santos são leves e firmes. Personalidades diferentes em um único coração. Por que existem santos entre nós? Pelo gesto da misericórdia de Deus. Cada qual com sua personalidade própria e pensamento autônomo. Santos não são fotocópias nem camaleônicos.

Para que precisamos ser santos? Para que saibamos que cada um de nós é uma pessoa única muito amada por Deus. Cada qual com seus amores e suas dores. Seus pecados e suas virtudes. Que fazem os santos? Eles veem Deus onde ninguém vê, e estes homens e mulheres terminam por proclamá-lo por meio de suas vidas e louvá-lo em suas preces para que todos possamos reconhecê-los na plenitude do amor. Cada qual com seus sonhos e fidelidades.

Os 54 primeiros papas até o ano 530 foram canonizados, pois todos martirizados por viverem a fé cristã em tempos de perseguição. Nos últimos dez séculos, entretanto, só foram canonizados cinco papas: Leão IX, Gregório VII, Celestino V, Pio V e Pio X.

Esta cerimônia pode ser um belo sacramental de que estamos diante de um novo tempo de santidade chovendo dos céus para todo cristão de todas as confissões e Igrejas que amam a Deus e servem à humanidade. Assim, com estes dois novos santos papas, nossa Igreja pode cantar o Salmo 68,9-11: “Tu, ó Deus, mandaste a chuva em abundância, confortaste a tua herança, quando estava cansada. Nela habitava o teu rebanho; tu, ó Deus, fizeste provisão da tua bondade para o pobre. O Senhor deu a palavra; grande era o exército dos que anunciavam as boas novas”.

Temos a manifestação do amor de Deus, consagrando e nos revelando dois novos santos que ofertaram sua vida em nome do Cristo. Dois papas. Dois homens com o nome de João, que quer dizer “agraciado por Deus”. Que a misericórdia de Deus possa se espalhar pelo mundo inteiro! João de Deus e João de Trigo, orate pro nobis.

* Fernando Altemeyer Junior é teólogo e doutor em Ciências Sociais, professor do Departamento de Ciências da Religião, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Artigo para Revista Família Cristã.

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